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sexta-feira, 19 de março de 2010

lembra-me um sonho lindo

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas

Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso

Ai como eu te quero,
ai de madrugada,
ai alma da terra,
ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo,
ai tão sossegada,
ai beijo-te o corpo,
ai seara, tão desejada


poema escrito por Fausto para o álbum "Por Este Rio Acima" de 1984

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ao longo de um claro rio de água doce

E parecia aquele Tejo
este rio doirado
parecia até que tu vinhas
comigo a meu lado

ou seria das flores
e das matas cheirosas
das madressilvas dos frutos
das ervas babosas

E pareciam campinas
vales tão estendidos
pareciam mesmo os teus braços
que me abraçam cingidos

ou seria das silvas
do gengibre do benjoim
do cheiro daquela chuva
dos cacimbos enfim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

E parecia verão
no imenso arvoredo
parecia até que dizias
qualquer coisa em segredo

ou seria dos dias
muito quedos
sem fim
das noites
muito melhor
assombradas
assim

porque haveria de ter
saudades tuas
ao longo de um claro rio
de água doce

Fausto

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

por este rio acima



Este disco duplo é um dos cinco melhores discos portugueses de sempre. Um disco com a sonoridade tipíca da música popular portuguesa, mas filtrada pela sensibilidade de Fausto como cantautor. É um disco temático sobre as aventuras (e principalmente as desventuras) dos Portugueses por esse mundo perigoso e desconhecido no tempo das descobertas, baseado nos relatos de Fernão Mendes Pinto em "Peregrinação".  O disco está organizado de forma a replicar as viagens para o Oriente. Daí que a primeira canção do disco tem o título de "É o mar que nos chama", que serve como introdução. A segunda faixa é "O barco vai de saída" que dá início à acção. Nesta canção, Fausto descreve as várias razões que levavam os Portugueses a enfrentar o mar...

O barco vai de saída
Adeus ó cais de alfama
Se agora vou de partida
Levo-te comigo ó cana verde
Lembra-te de mim ó meu amor
Lembra-te de mim nesta aventura
P´ra lá da loucura
P´ra lá do equador

Ah! mas que ingrata ventura bem me posso queixar
Da pátria a pouca fartura
Cheia de mágoas ai quebra mar
Com tantos perigos ai minha vida
Com tantos medos e sobressaltos
Que eu já vou aos saltos
Que eu vou de fugida

Sem contar essa história escondida
Por servir de criado a essa senhora
Serviu-se ela também tão sedutora
Foi pecado
Foi pecado
E foi pecado sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa

Gingão de roda batida
Corsário sem cruzado
Ao som do baile mandado
Em terras de pimenta e maravilha
Com sonhos de prata e fantasia
Com sonhos da cor do arco-íris
Desvairas se os vires
Desvairas magia

Já tenho a vela enfunada
Marrano sem vergonha
Judeu sem coisa sem fronha
Vou de viagem ai que largada
Só vejo cores ai que alegria
Só vejo piratas e tesouros
São pratas são ouros
São noites são dias

Vou no espantoso trono das águas
Vou no tremendo assopro dos ventos
Vou por cima dos meus pensamentos
Arrepia
Arrepia
E arrepia sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa

O mar das águas ardendo
O delírio dos céus
A fúria do barlavento
Arreia a vela e vai marujo ao leme
Vira o barco e cai marujo ao mar
Vira o barco na curva da morte
Olha a minha sorte
Olha o meu azar

E depois do barco virado
Grandes urros e gritos
Na salvação dos aflitos
Esfola, mata, agarra
Ai quem me ajuda
Reza, implora, escapa
Ai que pagode
Reza tremem heróis e eunucos
São mouros são turcos
São mouros acode

Aquilo é uma tempestade medonha
Aquilo vai p´ra lá do que é eterno
Aquilo era o retrato do inferno
Vai ao fundo
Vai ao fundo
E vai ao fundo sim senhor
Que vida boa era a de Lisboa.