Mostrar mensagens com a etiqueta poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poemas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de março de 2011

a minha geração


A minha geração já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou,
ou então morreu; já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas, e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão,
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso,
e um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida
na cegueira do comércio.

A minha geração é toda a minha solidão, é flor de ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.

Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor
do lixo e do descuido, deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai
corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro
preconceito, que o teu único defeito é ter demasiadas
qualidades e tropeçar nelas.

Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente que és por demais
inteligente para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus,
de fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhores do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada,
com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?

Mas, minha geração, valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo,
e a comida estava óptima! O que vamos fazer?


Poema para a canção "1970 (Retrato)", que faz parte do disco "1970" de JP Simões, editado em 2007. JP Simões não tem ilusões de intervenção política ou objectivos panfletários, mas tanto nos poemas das canções, como nos concertos ao vivo, usa palavras sábias e cruas para descrever as contradições de todas as gerações pós-25 de Abril, que se encontram perdidas entre o sonho de um país melhor e a realidade triste da actualidade.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida —
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos
tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: Sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: Sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

 
Álvaro de Campos

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

do vale à montanha


Entre Reguengo do Fétal e São Mamede - Dezembro 2010



Do vale à montanha,
Da montanha ao monte, cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por Quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim


Fernando Pessoa

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

laranja


Caiu no chão a laranja
E rolou pelo chão fora.
Vamos apanhá-la juntos,
E o melhor é ser agora.


Fernando Pessoa

quarta-feira, 9 de junho de 2010

samba de acento

Vamos pôr os pontos nos is:
Eu vou atrás do til dos teus quadris
Que til e tal
Cobra no areal
Eu sei que ponho o acento grave em tudo
Mas tu libertas o acento agudo
Por isso o til que dás
Nas ancas é capaz
De me pôr a dizer coisas sem nexo:
Lua, golo, aliás,
Gata no banco de trás.
Num abraço circunflexo

 
João Monge
 
(poema para a canção Samba de acento do disco "O Assobio da Cobra" de Manuel Paulo).

terça-feira, 1 de junho de 2010

biografia

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Alberto Caeiro

quarta-feira, 14 de abril de 2010

pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny

segunda-feira, 5 de abril de 2010

eu e tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, — em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva
— O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva —
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...

 
António Feijó

sexta-feira, 19 de março de 2010

lembra-me um sonho lindo

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas

Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso

Ai como eu te quero,
ai de madrugada,
ai alma da terra,
ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo,
ai tão sossegada,
ai beijo-te o corpo,
ai seara, tão desejada


poema escrito por Fausto para o álbum "Por Este Rio Acima" de 1984

domingo, 7 de março de 2010

canção do engate

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

Tu estás só e eu mais só estou
Tu que tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia

Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada


António Variações

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

o que é o amor?

The room is cold and has been like this for several months.
If I close my eyes I can visualise everything in it right down
Right down to the broken handle on the third drawer down of the dressing table.
And the world outside this room has also assumed a familiar shape
The same events stuffed in a slightly different order each day.
Just like a modern shopping centre.

And it's so cold - yeah it's so cold.
And as I'm standing across this room
I feel as if my whole life has been leading to this one moment.
And as I touch your shoulder tonight this room has
become the centre of the entire universe.

So what do I do? I've got a slightly sick feeling in my stomach
Like I'm standing on top of a very high building oh yeah.

All the stuff they tell you about in the movies
but this isn't chocolate boxes and roses.
It's dirtier than that, like some small animal that only comes out at night.
And I see flashes of the shape of your breasts and the curve of your belly
And they make me have to sit down and catch my breath.

What is this feeling called love.
Why me, why you, why here, why now.
It doesn't make no sense no. It's not convenient no.
It doesn't fit my plans no.
It's something I don't understand oh.
F.E.E.L.I.N.G. C.A. double L.E.D. L.O.V.E.
Oh what is this thing that is happening to me.
Oh. What is this feeling called love.

escrito por Jarvis Cocker para o álbum "Different Class" dos Pulp. Jarvis descreve com detalhe e argúcia esse sentimento chamado Amor. Por exemplo, quando amamos profundamente é difícil dizer "amo-te". É por isso que o Jarvis soletra a palavra Amor...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

à espera que o tempo mude

Fresco e róseo, o sol ergue-se nas alturas,
No remoto azul o mar corre pelos seus canais,
O vento levanta-se sobre o peito do mar, soprando em direcção à terra,
O grande vento do Oeste ou do Sudoeste,
Flutuando agilmente com a espuma das águas, branca como o leite.

Mas eu não sou o mar nem o sol vermelho,
Não sou o vento que ri como as raparigas,
Nem o vento imenso que fortalece, nem o vento que açoita,
Nem o espírito que martiriza o seu próprio corpo até ao terror e à morte,
Sou aquele que, invisível, vem cantar, cantar e cantar,
Que fala e fala nos regatos e esvoaça sobre a terra,
Sou aquele que os pássaros conhecem de manhã e de tarde nos bosques,
E conhecem as praias, a areia, as ondas sibilantes, a insígnia e a bandeira,
Que lá no alto ondulam e ondulam.


Walt Whitman

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

nem xadrez, nem damas, nem dominó...

There's a new game
We like to play you see
A game with added reality
You treat me like a dog
Get me down on my knees

We call it master and servant
We call it master and servant

It's a lot like life
This play between the sheets
With you on top and me underneath
Forget all about equality

Let's play master and servant
Let's play master and servant

It's a lot like life
And that's what's appealing
If you despise that throwaway feeling
From disposable fun
Then this is the one

Domination's the name of the game
In bed or in life
They're both just the same
Except in one you're fulfilled
At the end of the day

Let's play master and servant
Let's play master and servant


Martin Gore

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

o assobio da cobra

Às vezes fico tenso,
fico “penso, logo é triste”
fico sem voz e sem gosto
Com vontade de morder
as tuas maçãs do rosto
até chegar ao caroço.
Ser o arrepio do osso,
cobra de água de cisternas,
subir pelas tuas pernas,
provocar um alvoroço

Ser o dono da risada,
do ai-ai, não digas nada,
que eu tropeço na vontade
Mando às malvas a prudência,
ganho fama na cidade
Mas acabo mastigando,
remoendo e relembrando
o sabor da existência

Às vezes, fico leve,
fico “penso, logo é breve”
fico solto de alegria
E as tuas maçãs do rosto
Penso, logo já mordia!
É o assobio da cobra,
que se dobra e se desdobra,
na redonda melodia
E tu dizes «Já sabia!
Já sabia que caía»

No mar da tua risada,
no ai-ai, não digas nada,
que eu tropeço na vontade,
mando às malvas a prudência,
ganho fama na cidade
Mas acabo mastigando,
remoendo e relembrando
o sabor da existência


João Monge

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

cada dia sem gozo não foi teu

Cada dia sem gozo não foi teu:
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!


Ricardo Reis

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

vem

Vem
Além de toda a solidão
perdi a luz do teu viver
perdi o horizonte

Está bem
Prossegue lá até quereres
Mas vem depois iluminar
Um coração que sofre

Pertenço-te
Até ao fim do mar
Sou como tu
Da mesma luz
Do mesmo amar

Por isso vem
Porque te quero
Consolar
Se não está bem
deixa-te andar a navegar


Pedro Ayres Magalhães, para o disco "Espírito da Paz" dos Madredeus.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

a sangue e fogo

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Pablo Neruda

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

entre amigos


O que dizer a um amigo que nos confessa ter terminado uma relação amorosa? O que fazer depois do amor? Eis a resposta:


Let Them Good Times Roll

I'm gonna go outside and let them good times roll
Got them drinks, got them records, let's rock and roll
My friend is in trouble, he's lost in the woods
I've been there once and it ain't good.
The clock is ticking, you better move
You can either win or lose
better take a look around before you choose
What you choose to do, well, it's up to you
some were one night stands, others would die for you

It's such a hard thing to do
all the things you're going through
but don't worry, I'm with you
Well... That's love, what can you do?

The last time you were out of love, so were all your friends
but we stuck together man, until the end
Now we all expect the same from life
still looking for the two wrongs that will make one right
That's why you left her, and that's why i'm here
got something to tell you, hope you still can hear

I hope you still have time, hope I'm not too late
only fools come across a man and his fate
So listen to what I say, nevermind what I did
search for nothing at all and you will find all that you need
Love will come your way, faster than a heartbeat
don't put too much time into it, just follow your feet
You'll find one to keep, just follow your feet.

Sean Riley

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A espantosa realidade das coisas

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Alberto Caeiro